Flávio Bolsonaro sai fortalecido do debate da Globo e aposta em propostas para conquistar eleitores indecisos
O último debate presidencial antes do segundo turno das eleições de 2026 colocou frente a frente, na noite de sexta-feira (23), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Transmitido pela TV Globo, o confronto representou a última grande oportunidade televisiva para os dois candidatos apresentarem suas propostas, confrontarem seus adversários e tentarem conquistar os votos que ainda poderiam definir a eleição deste domingo (25).
Embora as avaliações publicadas após o programa tenham apresentado divergências, uma leitura estratégica do confronto permite identificar os motivos pelos quais Flávio Bolsonaro pode ser considerado um dos grandes beneficiados da noite. O senador conseguiu concentrar parte de sua argumentação em temas diretamente relacionados ao cotidiano da população, como custo de vida, endividamento das famílias, poder de compra e segurança pública. Também demonstrou maior domínio de determinados aspectos do formato, especialmente na administração do tempo e na construção de uma mensagem voltada ao futuro.
O resultado mais importante para sua campanha, portanto, vai além de uma contagem de ataques ou de momentos de maior repercussão. A questão central é que Flávio precisava sustentar a posição conquistada no primeiro turno e impedir que Lula transformasse o último debate em uma oportunidade decisiva de recuperação.
A análise de reportagens da BBC News Brasil, do Valor Econômico, da Jovem Pan, do Terra, do UOL, de O Globo, do Metrópoles e do Jornal O Sul permite compreender os pontos fortes e fracos dos candidatos e identificar por que o desempenho do senador do PL pode ter sido politicamente vantajoso.
1. O controle do tempo e das regras favoreceu Flávio Bolsonaro
Em um debate presidencial, o conteúdo das respostas é fundamental, mas a maneira como o candidato administra o tempo disponível também interfere na percepção do público. Uma resposta interrompida, uma pergunta mal formulada ou a dificuldade para concluir um raciocínio podem reduzir a força de um argumento, mesmo quando o assunto é relevante.
Esse foi um dos aspectos destacados nas avaliações posteriores ao encontro da Globo.
A BBC News Brasil ouviu especialistas que observaram diferenças entre os candidatos na apresentação e na condução das falas. Denilde Holzhacker, professora de Ciência Política da ESPM, identificou uma pequena vantagem para Flávio, destacando o esforço para apresentar propostas e o melhor controle do tempo. Eduardo José Grin, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), também observou que o senador demonstrou maior domínio da comunicação televisiva, embora tenha avaliado que Lula teve bons momentos ao longo do confronto.
O debate anterior, realizado pela Rede Bandeirantes em 18 de outubro, havia deixado espaço para que Flávio ajustasse sua estratégia. Na Globo, o senador procurou apresentar uma postura mais moderada e organizada, buscando demonstrar que poderia participar de uma discussão presidencial sem depender exclusivamente de confrontos pessoais.
Essa mudança é relevante porque a imagem de um candidato é construída tanto pelo que ele diz quanto pela maneira como reage às provocações. Em uma disputa apertada, transmitir tranquilidade, concluir respostas e aproveitar o tempo disponível pode ajudar a reforçar a percepção de preparo.
O Valor Econômico também destacou a maior objetividade de Flávio e seu domínio do tempo como aspectos positivos de sua atuação. Para uma parcela do eleitorado, essas características podem pesar na comparação entre os candidatos.
O primeiro trunfo de Flávio, portanto, foi a capacidade de aproveitar melhor determinados momentos do formato televisivo e direcionar sua comunicação para assuntos centrais da campanha.
2. Custo de vida e endividamento: o debate chegou ao bolso do brasileiro
Se existe um tema capaz de aproximar a discussão presidencial da realidade cotidiana, é a economia doméstica. O preço dos alimentos, as contas mensais, as dívidas acumuladas e a capacidade de fazer o dinheiro render são questões que afetam diretamente as famílias.
Flávio Bolsonaro procurou explorar esse terreno ao questionar o desempenho econômico do governo Lula e apresentar o custo de vida como um dos principais problemas que pretende enfrentar.
Durante o debate, o senador recorreu a exemplos ligados às despesas das famílias e à perda do poder de compra. Entre as imagens utilizadas esteve a comparação entre parcelar um eletrodoméstico e precisar parcelar até os alimentos comprados para consumo diário.
A estratégia foi destacada pelo Valor Econômico, que observou a utilização de exemplos populares para traduzir a discussão econômica em situações reconhecíveis pelo público.
A abordagem tem uma característica importante: transforma indicadores econômicos abstratos em experiências concretas. Em vez de restringir o debate a números e conceitos técnicos, o candidato procura estabelecer uma ligação entre a situação econômica do país e a rotina de quem administra o orçamento doméstico.
O tema também apareceu na análise da BBC News Brasil. Eduardo Grin e Denilde Holzhacker identificaram custo de vida, poder de compra e endividamento das famílias entre os assuntos em que Flávio conseguiu construir uma mensagem clara e direcionada a segmentos distintos do eleitorado.
Isso não significa que uma frase de efeito seja suficiente para demonstrar, por si só, a situação completa da economia brasileira. A avaliação de resultados econômicos depende de indicadores, séries históricas e comparação entre diferentes períodos. Entretanto, em um debate eleitoral, a capacidade de apresentar problemas de forma compreensível e associá-los a propostas é um elemento importante da comunicação política.
Flávio procurou ocupar justamente esse espaço: o de um candidato que identifica dificuldades no cotidiano e promete mudanças na condução econômica.
Para a campanha do PL, essa estratégia oferece a possibilidade de dialogar com eleitores que estão insatisfeitos com suas despesas e procuram alternativas para melhorar a própria situação financeira.
3. A estratégia de se apresentar como alternativa ao governo Lula
Outro ponto importante foi a tentativa de Flávio de construir uma identidade eleitoral própria, apresentando-se como uma alternativa à continuidade administrativa representada por Lula.
Esse é um desafio recorrente para candidatos de oposição. Enquanto o presidente pode defender ações realizadas durante o mandato, o adversário procura demonstrar por que o país deveria seguir outro caminho.
A análise publicada pelo Valor Econômico apontou que Flávio aproveitou a dificuldade de Lula para conciliar a defesa de seu governo com a apresentação de uma agenda para os próximos quatro anos. O presidente precisava sustentar o legado de sua administração e, simultaneamente, responder às críticas sobre os problemas apontados pelo adversário.
O senador explorou essa diferença ao direcionar parte de suas falas para o futuro. Em vez de limitar sua participação à defesa do governo de Jair Bolsonaro, seu pai, procurou relacionar sua candidatura a propostas econômicas e a uma agenda própria.
Na avaliação da professora Denilde Holzhacker, ouvida pela BBC News Brasil, Flávio tentou demonstrar preparo e capacidade de liderança, apresentando-se como uma alternativa de governo, e não apenas como herdeiro político do ex-presidente.
Esse aspecto tem peso estratégico. Em uma eleição presidencial, a associação com uma liderança política conhecida pode representar uma vantagem para mobilizar apoiadores, mas também pode gerar questionamentos sobre a autonomia do candidato. Por isso, demonstrar domínio de assuntos nacionais e apresentar prioridades próprias pode ajudar a ampliar sua imagem para além da identificação com o grupo político de origem.
A postura adotada na Globo procurou responder a esse desafio: defender sua posição política sem transformar todas as respostas em uma discussão sobre o passado.
Para Flávio, a possibilidade de apresentar uma agenda voltada ao futuro representou uma oportunidade de consolidar a imagem de candidato de oposição e de mudança.
4. Segurança pública: um dos principais campos de disputa
A segurança pública também ocupou posição central no confronto. O tema é especialmente importante porque reúne preocupações sobre criminalidade, atuação policial, proteção das famílias e responsabilidade do poder público.
Flávio procurou associar sua candidatura à defesa de medidas de segurança e questionar a atuação do governo federal. A BBC News Brasil apontou que o senador conseguiu levar a discussão para assuntos mais associados à sua campanha, com destaque para a segurança pública.
Entretanto, esse foi também um dos momentos mais delicados para o candidato do PL.
Lula explorou o caso de Ana Clara, menina morta durante uma ação policial no Rio de Janeiro, e questionou a atuação profissional de Flávio na defesa do policial acusado pelo crime. A mãe da criança estava presente no debate. O senador sustentou a necessidade de considerar a alegação de inocência do policial, e o episódio gerou repercussão nas avaliações publicadas após o programa.
É importante diferenciar a atuação profissional de um advogado da responsabilidade criminal de seu cliente. A defesa jurídica integra o funcionamento da Justiça, e a responsabilidade por um crime precisa ser apurada pelas autoridades competentes. Ao mesmo tempo, em uma campanha eleitoral, decisões profissionais e posicionamentos públicos podem se tornar objeto de questionamento político.
A discussão colocou Flávio diante de um desafio: defender sua atuação e, simultaneamente, demonstrar sensibilidade diante de uma tragédia humana.
A BBC News Brasil registrou que o episódio foi considerado um ponto negativo para o senador por parte dos especialistas consultados. O tema também apareceu nas análises do Valor Econômico e de O Globo.
Portanto, seria impreciso afirmar que Flávio dominou todos os assuntos do debate. Na segurança pública, ele conseguiu abordar uma área importante de sua agenda, mas também enfrentou um dos questionamentos mais difíceis da noite.
O saldo estratégico desse bloco depende da forma como o público interpretou a discussão: como uma defesa da atuação profissional e da presunção de inocência ou como uma resposta insuficiente diante da gravidade do caso.
5. O episódio dos “nove dedos” e o pedido de desculpas
Outro momento de repercussão ocorreu quando Flávio utilizou a expressão “nove dedos” para se referir a Lula, que perdeu o dedo mindinho da mão esquerda em um acidente de trabalho quando era jovem.
A fala abriu espaço para que o presidente reagisse e transformasse o episódio em uma discussão sobre respeito e trajetória pessoal.
Segundo as análises publicadas pela BBC News Brasil e pelo Valor Econômico, Lula aproveitou o momento para pressionar o adversário, que acabou pedindo desculpas pela ofensa.
O episódio foi apontado por analistas como um dos momentos favoráveis ao presidente. A reação de Lula permitiu deslocar a discussão para sua história de vida e para a experiência de trabalhadores que sofreram acidentes semelhantes.
Para Flávio, o episódio representou um risco de comunicação. Uma frase que poderia ser utilizada como provocação acabou oferecendo ao adversário a oportunidade de construir uma resposta de apelo pessoal.
O caso demonstra por que a avaliação de um debate precisa considerar tanto a estratégia geral quanto os erros pontuais. Flávio teve momentos de maior domínio da comunicação, mas a utilização da expressão foi uma vulnerabilidade explorada por Lula.
Em uma disputa eleitoral, o efeito de um episódio como esse depende também de sua repercussão posterior, da circulação de vídeos nas redes sociais e da interpretação dos eleitores que ainda não definiram seu voto.
6. O controle emocional e a mudança de postura em relação ao debate anterior
A comparação com o encontro da Band, realizado no domingo anterior, ajuda a entender a estratégia de Flávio.
As análises da BBC News Brasil e da Jovem Pan apontaram uma postura mais moderada do senador na Globo. Na avaliação do comentarista André Marsiglia, da Jovem Pan, Flávio conseguiu combinar uma atitude mais calma com uma abordagem propositiva, evitando entrar em todas as provocações do adversário.
Essa é uma leitura editorial, e não um resultado objetivo de votação. Ainda assim, ela identifica uma característica relevante da disputa: a tentativa de Flávio de controlar o tom do confronto e impedir que o debate se concentrasse exclusivamente em ataques pessoais.
Ao evitar reagir da mesma maneira a todas as provocações, o candidato procurou preservar espaço para apresentar suas mensagens sobre economia, segurança e futuro do país.
Essa postura também foi observada por analistas do Valor Econômico, que destacaram a maneira como o senador se esquivou de parte dos ataques e buscou fazer suas próprias provocações.
A estratégia não eliminou os momentos de tensão. O episódio dos “nove dedos” e a discussão envolvendo Ana Clara demonstraram que Flávio também foi atingido por questões pessoais e delicadas.
Mesmo assim, a mudança de postura em relação ao debate anterior foi um elemento importante para sua tentativa de transmitir uma imagem de maior controle diante das câmeras.
7. Lula também teve bons momentos — e isso precisa entrar na análise
Uma avaliação consistente do debate precisa reconhecer os pontos em que Lula conseguiu pressionar o adversário.
O presidente procurou comparar sua administração com o governo de Jair Bolsonaro, questionar a capacidade de Flávio para governar e explorar temas relacionados à trajetória do senador. Também teve momentos favoráveis ao abordar o caso de Ana Clara e ao reagir à referência aos “nove dedos”.
A BBC News Brasil ouviu o professor Eduardo José Grin, que identificou vantagem de Lula em parte dos primeiros blocos. Na avaliação do especialista, o presidente conseguiu defender sua experiência administrativa e teve bons momentos ao abordar políticas públicas.
A publicação também registrou que Grin considerou a possibilidade de Lula ter conquistado parte dos eleitores indecisos. Sua análise, contudo, apontou que essa vantagem inicial perdeu força no bloco final, quando o confronto se concentrou em acusações e questionamentos pessoais.
O episódio evidencia a diferença entre vencer momentos específicos e apresentar um desempenho globalmente superior. Lula conseguiu explorar vulnerabilidades do adversário, mas também enfrentou críticas pela administração do tempo e por dificuldades na condução de algumas respostas.
O presidente precisava utilizar o último debate para defender seu governo e convencer eleitores de que a continuidade seria a melhor escolha. Flávio, por sua vez, procurou concentrar a discussão nos problemas que atribui à atual administração e na necessidade de mudança.
A disputa entre essas duas estratégias foi o eixo central do confronto.
8. O quarto bloco: quando as propostas perderam espaço para as acusações
Um dos aspectos mais relevantes das análises publicadas após o debate foi a mudança de tom ao longo do programa.
Segundo o Valor Econômico, o encontro começou com uma estrutura que favorecia a discussão de propostas, mas terminou com uma troca mais intensa de acusações. A mudança reduziu o espaço para a exposição de ideias e levou os candidatos a dedicar parte do tempo a episódios controversos.
Entre os assuntos mencionados nas reportagens estavam questionamentos envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, o caso Lulinha e uma disputa relacionada a uma ilha em Angra dos Reis, que envolveu o jogador Richarlison e o advogado Willer Tomaz.
Esses episódios foram apresentados no debate como questionamentos políticos e acusações. As alegações citadas precisam ser tratadas com cautela e não devem ser confundidas com fatos definitivamente comprovados. Os envolvidos negaram irregularidades em questões mencionadas nas reportagens.
Para Flávio, a discussão final ofereceu a oportunidade de questionar o governo Lula sobre suspeitas e problemas que sua campanha considera relevantes. Para o presidente, o mesmo bloco abriu espaço para levantar questões sobre a atuação e as relações do adversário.
A estratégia de confronto direto pode mobilizar apoiadores, mas também apresenta riscos: quando as acusações ocupam a maior parte do tempo, os eleitores recebem menos informações sobre como cada candidato pretende governar.
Na análise de Eduardo Grin, publicada pela BBC News Brasil, Lula poderia ter mantido uma abordagem mais propositiva no bloco final. Essa avaliação reforça a interpretação de que a mudança de tom prejudicou a construção de uma comparação mais clara entre as propostas dos candidatos.
O ponto favorável a Flávio, nessa leitura, foi ter conseguido apresentar temas de sua agenda antes que o debate se concentrasse nas acusações.
9. O que disseram os principais veículos de comunicação
As reportagens publicadas na manhã deste sábado (24) mostram que a avaliação do desempenho dos candidatos variou conforme o critério utilizado.
BBC News Brasil: vantagem de Flávio em aspectos estratégicos, mas sem consenso
A BBC ouviu especialistas que divergiram sobre o resultado. Denilde Holzhacker e Murilo Aragão identificaram vantagem para Flávio, especialmente pelo controle do tempo, pela apresentação de propostas e pela ênfase em temas como economia e segurança pública.
Eduardo José Grin identificou pontos positivos para Lula e considerou que o presidente poderia ter conquistado indecisos. Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, não identificou superioridade evidente de nenhum dos candidatos.
A reportagem ajuda a sustentar a interpretação de que Flávio teve vantagens importantes em aspectos da apresentação, sem estabelecer uma vitória consensual.
Valor Econômico: objetividade e discurso econômico
As análises do Valor destacaram a objetividade de Flávio, seu melhor domínio do tempo e o esforço para associar a candidatura a uma agenda de mudança.
O veículo também registrou momentos favoráveis a Lula, incluindo a reação à expressão “nove dedos” e o questionamento sobre a atuação do senador na defesa do policial acusado pela morte de Ana Clara.
A avaliação aponta que Flávio conseguiu explorar temas econômicos, mas também cometeu erros que podem repercutir negativamente.
Jovem Pan: avaliação favorável ao senador por parte de um comentarista
O comentarista André Marsiglia avaliou que Flávio venceu o confronto, destacando a combinação de calma, moderação e apresentação de propostas.
A própria cobertura da Jovem Pan, entretanto, também registrou a avaliação de Fábio Piperno, que considerou o debate sem um vencedor claro. Essa diferença demonstra que até mesmo dentro de uma mesma cobertura podem existir leituras distintas sobre o desempenho dos candidatos.
O Globo: Lula teve melhor nota média entre os colunistas avaliados
Na avaliação publicada por O Globo, o presidente Lula recebeu nota média de 2,7, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 2,4, em uma escala de 1 a 5.
O resultado é importante porque contraria a tese de uma vitória consensual de Flávio. Entre os pontos destacados pelos colunistas estavam o domínio de Lula em parte do confronto e os erros cometidos pelo senador em momentos específicos.
Essas notas refletem a avaliação dos jornalistas participantes, e não uma pesquisa de opinião com o eleitorado brasileiro.
UOL: avaliações divididas e momentos de recuperação
Os colunistas ouvidos pelo UOL também divergiram. José Roberto de Toledo observou oscilações nas reações monitoradas nas redes sociais, com momentos favoráveis a Lula e outros em que Flávio teria ganhado espaço.
Letícia Casado considerou que Lula teve desempenho melhor do que no debate anterior. João Paulo Charleaux, por sua vez, apontou pontos fortes para os dois candidatos, destacando o tema do endividamento e do poder de compra na atuação de Flávio.
O quadro apresentado pelo UOL reforça que a percepção de quem venceu depende do momento observado e do critério utilizado.
Terra: economia e comunicação cotidiana como diferenciais
Os especialistas consultados pelo Terra também apresentaram avaliações diferentes. Parte deles considerou que Lula teve vantagem, especialmente na parte final, enquanto outra avaliação reconheceu a evolução de Flávio em relação ao debate anterior.
A reportagem destacou a capacidade do senador de traduzir questões econômicas para uma linguagem próxima do cotidiano e a tentativa de Lula de associar o adversário a controvérsias sobre sua trajetória.
Metrópoles: avaliação individual favorável a Flávio
Em sua coluna, Tiago Pavinatto atribuiu notas de 9 a Flávio e 1 a Lula, defendendo que o senador teve desempenho superior.
A avaliação é uma opinião individual do colunista e não deve ser apresentada como uma média de especialistas ou como resultado de uma pesquisa. Ainda assim, ilustra uma das leituras mais favoráveis ao candidato do PL publicadas após o debate.
Jornal O Sul: propostas sobre economia, agro e aposentadorias
A análise publicada pelo Jornal O Sul destacou os temas econômicos e as propostas discutidas pelos candidatos, incluindo custo de vida, agronegócio, aposentadorias e salário mínimo.
A cobertura também registrou diferenças entre os discursos: Flávio procurou questionar o governo e apresentar compromissos para um eventual mandato, enquanto Lula defendeu ações de sua administração.
Em conjunto, as reportagens permitem identificar os principais argumentos favoráveis a Flávio, mas também mostram que a disputa não terminou com uma avaliação uniforme.
10. Por que o debate pode ter sido mais vantajoso para Flávio?
A leitura estratégica do confronto passa pela situação eleitoral de cada candidato.
De acordo com a reportagem da BBC News Brasil publicada em 24 de outubro, Flávio terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A publicação também informou que o agregador de pesquisas da BBC apontava vantagem de três pontos percentuais para o senador nas intenções de voto para o segundo turno naquele momento.
Nesse cenário, as prioridades dos candidatos eram diferentes.
Lula precisava reduzir a diferença, conquistar indecisos e defender sua administração. Flávio precisava preservar a vantagem e evitar que o último debate produzisse uma recuperação do presidente.
Essa diferença ajuda a explicar por que a manutenção de uma postura relativamente controlada, a apresentação de uma agenda econômica e o esforço para projetar uma imagem de alternativa de governo podem ser considerados resultados politicamente positivos para o senador.
Em uma disputa acirrada, o candidato que está à frente pode obter um resultado estratégico satisfatório ao evitar erros graves, sustentar sua mensagem central e impedir que o adversário domine a narrativa do confronto.
Isso não significa que Flávio tenha escapado de todos os problemas. Os episódios envolvendo Ana Clara e a expressão “nove dedos” foram destacados como pontos negativos, enquanto Lula conseguiu momentos de pressão e recuperação.
Ainda assim, o senador teve a oportunidade de apresentar sua candidatura para além da comparação entre os governos de Lula e Jair Bolsonaro. Ao insistir em temas econômicos e em segurança pública, procurou colocar a discussão em áreas relevantes para a vida cotidiana dos eleitores.
É nesse sentido que se pode defender a tese de que Flávio saiu fortalecido: não necessariamente porque venceu cada bloco ou recebeu as melhores notas em todas as avaliações, mas porque conseguiu sustentar a mensagem de mudança e apresentar argumentos ligados a preocupações concretas da população.
11. O debate definiu a eleição?
A resposta, com base nas reportagens analisadas, é que ainda não havia elementos para afirmar que o confronto mudaria decisivamente o resultado da eleição.
O Terra registrou que os especialistas não identificaram uma mudança decisiva na disputa. A BBC News Brasil também destacou a divergência entre os analistas e a possibilidade de que o efeito final dependesse da maneira como as campanhas trabalhariam os últimos momentos antes da votação.
Um debate presidencial pode influenciar a percepção dos eleitores, gerar trechos de grande circulação nas redes sociais e reforçar opiniões já existentes. Entretanto, seu impacto eleitoral depende de diversos fatores, incluindo a repercussão posterior, a avaliação prévia dos candidatos e as prioridades de cada eleitor.
A disputa do segundo turno também envolve eleitores que já tomaram sua decisão, apoiadores mobilizados e pessoas que ainda avaliam as alternativas. O desempenho televisivo é apenas uma das variáveis desse processo.
Por isso, a conclusão mais responsável é que o debate ofereceu argumentos para a campanha de Flávio sustentar sua posição, mas não permite garantir que a eleição esteja decidida.
Conclusão: Flávio apostou na mudança e encontrou espaço para sustentar sua candidatura
O último debate presidencial da TV Globo foi marcado por momentos favoráveis aos dois candidatos, discussões sobre propostas e uma escalada de acusações na parte final.
Flávio Bolsonaro conseguiu explorar temas como custo de vida, endividamento das famílias, poder de compra e segurança pública, além de demonstrar maior domínio de determinados aspectos da dinâmica televisiva. Sua estratégia procurou associar a candidatura a uma alternativa ao governo Lula e apresentar uma mensagem direcionada ao futuro.
Esses elementos oferecem argumentos para considerar que o senador saiu fortalecido do confronto, especialmente do ponto de vista da comunicação política e da preservação de sua posição eleitoral.
Ao mesmo tempo, os questionamentos sobre Ana Clara, o episódio dos “nove dedos” e as avaliações favoráveis a Lula mostram que o desempenho de Flávio esteve longe de ser impecável. As notas dos colunistas de O Globo, as análises do UOL e as avaliações de especialistas ouvidos pela BBC e pelo Terra reforçam que não houve consenso sobre quem venceu.
A principal conclusão é que Flávio conseguiu cumprir parte importante de sua missão: defender sua candidatura, explorar temas relevantes para o eleitorado e manter em evidência a proposta de mudança. Se essa atuação será suficiente para transformar a percepção do debate em votos, a resposta dependerá do eleitor e do resultado das urnas neste domingo (25).
Mais do que proclamar um vencedor absoluto, a análise do confronto mostra que, na reta final de uma eleição presidencial, controle da comunicação, clareza de propostas e capacidade de evitar erros podem ser tão importantes quanto os ataques feitos ao adversário.
Fontes consultadas para esta análise:
- BBC News Brasil — Debate da Globo: quem ganhou e quem perdeu no último confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro?
- UOL — Quem venceu o debate entre Lula e Flávio Bolsonaro? Colunistas analisam
- Valor Econômico — Quem ganhou o debate da Globo? Veja análises de colunistas do Valor
- Jovem Pan — Quem venceu o debate da Globo, Lula ou Flávio?
- Terra — Quem venceu o debate da Globo entre Lula e Flávio?
- O Globo — Colunistas avaliam o desempenho de Lula e Flávio
- Metrópoles — Flávio vence Lula no debate da Globo por 9 x 1
- Jornal O Sul — Quem ganhou o debate de ontem: Flávio ou Lula?
Nota editorial: as avaliações atribuídas a especialistas e colunistas refletem opiniões individuais ou análises publicadas pelos respectivos veículos. Acusações mencionadas durante o debate devem ser tratadas como alegações, salvo quando houver comprovação independente.
