O Wokismo na Educação Brasileira

A educação no Brasil está passando por uma transformação significativa, com os pais e mães tendo cada vez menos liberdade para escolher a educação de seus filhos. Embora os mais afetados sejam os que não podem pagar por uma escola privada, não são os únicos a serem impactados. Mesmo nas escolas privadas, a diversidade de oferta curricular tem sido tolhida, pois todas as escolas, públicas ou privadas, precisam incluir os objetivos de aprendizagem estabelecidos na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Além disso, os cursos de formação de professores devem seguir currículos chancelados pelo Ministério da Educação (MEC), o que significa que a influência do Estado na educação é cada vez maior.

No entanto, é a linguagem woke que representa o maior risco. Embora existam materiais didáticos abertamente enviesados por conteúdos “marxistas raiz”, eles são transparentes e fáceis de identificar. Já a linguagem woke é mais sutil, pois utiliza termos comuns, como diversidade, empatia, inclusão, equidade e direitos humanos, mas com significados alterados. Esses termos estão presentes em documentos oficiais de órgãos do governo brasileiro que determinam abordagens educacionais, conteúdos curriculares, formação docente e políticas de combate à violência nas escolas.

É importante notar que nem todos os que usam a linguagem woke o fazem com intuito de enganar ou manipular. Muitos professores simplesmente não aprenderam outra forma de falar sobre seu trabalho senão através de algum arremedo de pedagogia neomarxista e doutrina woke. Por isso, pais e mães precisam ser capazes de questionar mesmo pessoas insuspeitas e bem-intencionadas, como o coordenador acadêmico que pretende levar adiante um projeto interdisciplinar que mistura matemática e racismo ou a diretora que adota políticas disciplinares, talvez estranhas ao que você considera de bom senso, para lidar com alunos violentos.

Há também professores e gestores educacionais que não ignoram a manipulação, mas se sentem legitimados em assim agir porque são movidos pela “missão” de despertar a “consciência crítica” de crianças e adolescentes para que “transformem o mundo” segundo os cânones da doutrina woke. São aqueles que leram os textos sagrados de Paulo Freire, de onde pinçam os trechos que regurgitam para embasar as práticas pedagógicas atuais. O Método Paulo Freire, que foi retrofitado para os dias de hoje, é uma das principais fontes de inspiração para a Escola Woke.

O wokismo é uma seita totalitária, coletivista e fundamentalista que está presente em todas as escolas públicas brasileiras, independentemente da missão ou valores da instituição. É evidente que pais e mães woke devem poder acessar escolas privadas cuja missão seja explicitamente woke. No entanto, não há como justificar que sejam impostos a escolas públicas e privadas, laicas ou confessionais tradicionais, o proselitismo e os ensinamentos de uma doutrina sectária que explicitamente refuta os valores judaico-cristãos e a epistemologia ocidental.

A imposição da Escola Woke é um poderoso entrave à liberdade de escolha educacional, pois impede pais e mães de exercerem não apenas o direito de garantir um ensino robusto, baseado na racionalidade das ciências e na profundidade estética da literatura e da arte, como também o direito de transmitir os seus valores morais e/ou religiosos aos seus filhos. Para reagir a essa situação, pais e mães precisam ser capazes de identificar as práticas e, principalmente, a linguagem da Escola Woke, para, em seguida, reagir pontualmente ou por meio de movimentos de base comprometidos com o fim da hegemonia woke imposta pelo Estado nas escolas brasileiras.

A ideia aqui é discernir os termos usados nos documentos oficiais, contextualizando-os e referenciando-os, para que restem claras as intenções de quem os produziu. A partir desse entendimento, será possível identificar linguagem semelhante no contexto escolar dos seus filhos, na mídia e nas propostas de especialistas em educação mais interessados na disseminação do wokismo do que na educação em si mesma. Dessa forma, pais, mães e cidadãos em geral estarão mais bem posicionados para reagir.

O wokismo é a crença de que todas as relações sociais e tudo o que a sociedade produz resultam da ação, consciente ou não, de grupos que desejam manter os sistemas de poder que os beneficiam, às custas de grupos oprimidos, marginalizados. Esses sistemas de poder, tais como o racismo estrutural e a homofobia, reforçam os privilégios de uns, enquanto impõem barreiras a outros, conforme suas identidades. Como as pessoas têm múltiplas identidades, elas são mais ou menos oprimidas ou mais ou menos opressoras conforme as interseções de suas identidades com os sistemas de poder. Supostamente, a experiência de opressão de uma mulher negra heterossexual é diferente da de uma mulher negra homossexual, e a de uma mulher negra homossexual magra, diferente da de uma mulher negra homossexual gorda, e assim por diante.

A seita woke refere-se a essa crença como consciência crítica, e, para ela, quem a possui — quem “acordou” — tem como missão transformar a sociedade ocidental, fundada em valores judaico-cristãos, em uma sociedade fundada na justiça social. Representa entender sua posicionalidade e nela basear e justificar todas as suas ações e relações. A partir dessa autoconsciência, cabe ao sectário engajar-se como ativista, ou, pelo menos, como aliado, na luta contra as ideologias que mantêm os tais sistemas de poder. Supostamente, é a adesão cega a essas ideologias — principalmente a supremacia branca, o patriarcado e a cis-heteronormatividade — que garantem a reprodução do status quo através de instituições como família, religião e educação.

Paulo Freire, ainda que megalomaníaco, provavelmente não supôs que influenciaria a formação de uma seita como o wokismo, hoje absolutamente hegemônico nas instituições educacionais do mundo ocidental. A presença de Freire é, no entanto, indiscutível. Referências implícitas ou explícitas ao seu pensamento estão em diversos cursos de formação universitária e nos critérios para financiamento de pesquisas pretensamente científicas — não apenas na área de Educação e das Humanidades em geral. Estão também em documentos da Unesco que embasam metas globalistas com as quais o Brasil se comprometeu e em planos nacionais e estaduais de educação.

Criticamente, estão nas salas de aulas, onde o Método Paulo Freire, uma vez repaginado (retrofitado) em abordagens pretensamente pedagógicas, é utilizado para o aliciamento de crianças e adolescentes para a seita woke. Ainda que não seja possível provar que o wokismo não existiria sem Paulo Freire, parece claro que, sem a sua influência, provavelmente o wokismo seria muito menos nefasto.

Anamaria Camargo é mestre em Educação pela Universidade de Hull, na Inglaterra, e diretora-executiva do Instituto Livres pra Escolher.

Sair da versão mobile