Em busca de uma terapia mais eficaz e personalizada contra a esclerose múltipla, os cientistas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) desenvolveram um teste inovador que prevê como pacientes com a doença reagirão aos efeitos do natalizumabe, o medicamento mais utilizado para o tratamento da condição. Esse avanço técnico pode revolucionar a forma como a terapia é realizada, pois permite determinar, com antecedência, a eficácia das substâncias no organismo, auxiliando na tomada de decisão de médicos e pacientes.
Publicada na renomada revista científica Nature Communications, a pesquisa visa analisar como as células sanguíneas reagem ao serem expostas ao medicamento, utilizando técnicas de microscopia e Inteligência Artificial. Com isso, os cientistas identificaram padrões nas amostras coletadas e determinaram a precisão dos testes, que pode atingir um índice de 90%. Essa ferramenta foi desenvolvida em parceria com cientistas da Bio-Manguinhos, Fiocruz Ceará, Universidade de São Paulo, Hospital Israelita Albert Einstein e Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde e Medicina da França.
A esclerose múltipla é uma doença autoimune que afeta o sistema nervoso central e pode comprometer gravemente a coordenação motora e a cognição. Ela ocorre quando há um erro nos linfócitos T-CD8, células que protegem o organismo de vírus e proliferação de tumores. Em pacientes com a doença, essas células se prendem em proteínas na parede dos vasos do cérebro, atravessam essa barreira e confundem os neurônios com ameaças, atacando-os por engano. O natalizumabe serve para impedir que essas células atravessem a parede dos vasos cerebrais.
No entanto, não é todo mundo que responde bem a essa medicação. Segundo a Fiocruz, 35% dos pacientes seguem apresentando sintomas, mesmo com dois anos de tratamento. Um dos autores da pesquisa, Vinicius Cotta, explica que, apesar do natalizumabe melhorar o ciclo da doença, também pode gerar infecções virais no sistema nervoso central de determinados pacientes. Além disso, o tratamento não é barato, e daí vem uma das vantagens do teste.
“Se as células desse paciente não estão respondendo bem ao tratamento in vitro, é melhor não utilizar”, afirma Vinicius Cotta. “O médico pode definir que aquele tratamento vai funcionar à parte para outro tratamento”. Esse é um dos passos que a Fiocruz vem adotando para combater a esclerose múltipla. Outro projeto em andamento visa a criação de novos anticorpos, na etapa do tratamento da doença.
“Já há alguns dados de modelagem, dados in vitro. Já estamos na etapa de testes que a gente chama de pré-clínicos, de novos medicamentos que talvez já tenham uma patente depositada, que talvez tenham efeitos melhores e talvez vários desses problemas, ou de infecções ou de alguns pacientes não responderam ao tratamento, talvez ele seja melhor”, destaca Vinicius Cotta. Segundo os pesquisadores, os testes de eficácia ainda precisam ser simplificados e validados em mais pacientes, e a expectativa é que ele possa ser incorporado ao SUS até 2035.
