Eleição de 2026: Previsões de Liderança em Rota de Confronto

O cenário eleitoral de 2026 está se configurando como um embate entre projetos de país distintos, com Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva liderando as pré-candidaturas. A leitura da polarização eleitoral levou Flávio a ajustar seu discurso, buscando uma abordagem mais conciliadora e ampliar acenos ao centro político.

Já Lula mantém uma narrativa mais voltada à mobilização de sua base histórica, enquadando a disputa como um embate ideológico e social. Para especialistas, o contraste entre a moderação estratégica de Flávio e a mobilização identitária de Lula já está marcando a pré-campanha, com ajustes calibrados conforme o humor do eleitorado.

A disputa entre os dois principais candidatos já está delineada em símbolos: continuidade versus ruptura, Estado indutor versus ajuste fiscal e apelo social versus agenda liberal. Enquanto Flávio busca se apresentar como uma opção de retomada da missão de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, com pragmatismo e mais abertura a outros públicos, Lula aposta na valorização de benesses sociais e em um discurso de suposta defesa da soberania nacional.

Márcio Coimbra, presidente do Instituto Monitor da Democracia, avalia que as linhas mestras dos discursos dos dois candidatos já estão consolidadas e que os ajustes tendem a ser apenas de forma e intensidade. Segundo ele, a antecipação das narrativas “ajuda a orientar o eleitor em ambiente já polarizado”, esvaziando opções ao centro.

Flávio tem feito ajustes no discurso após estrategistas da pré-campanha indicarem resistência entre eleitores mais ao centro, movimento que incluiu estratégia mais conciliadora nas redes sociais e acenos a públicos fora da base tradicional da direita. O pré-candidato passou a defender o combate ao racismo, manifestando apoio ao jogador Vinícius Júnior após denúncias de ataques, além de enaltecer o carnaval como manifestação cultural e econômica relevante e reagir positivamente a postagens voltadas à comunidade LGBT.

Em publicações em suas redes sociais e em entrevistas recentes, Flávio Bolsonaro sustenta que Lula “já deu o que tinha de dar”, recorrendo a metáforas como a de um carro antigo para simbolizar um modelo político ultrapassado. A ideia central é a de encerramento de um ciclo histórico com a “aposentadoria” de Lula.

Ao migrar do tom conciliador de 2022 para uma retórica mais combativa, Lula ancora seu discurso na defesa institucional e em entregas sociais, buscando reduzir resistências em segmentos de renda média. Flávio, por sua vez, mantém a austeridade como eixo econômico e tenta se posicionar como herdeiro político mais pragmático, capaz de dialogar com o mercado e o Congresso.

Para Leandro Gabiati, diretor da consultoria Dominium, Lula reforça a polarização como estratégia para consolidar sua base e, ao mesmo tempo, tenta dialogar com o centro por meio de pautas econômicas. Já Flávio ainda teria como principal desafio reduzir a rejeição e ampliar a percepção de moderação.

A argumentação de Flávio enfatiza o desequilíbrio fiscal, juros elevados e a percepção de insegurança pública causados por Lula, pontos frequentemente citados por economistas e presentes em discursos do senador ao defender que “o Brasil precisa voltar a crescer com responsabilidade fiscal”. Indicadores como a trajetória da dívida pública e o patamar ainda elevado da taxa básica de juros costumam ser citados por aliados para sustentar o argumento.

O senador tem reiterado a proposta de um “tesouraço” – termo usado por ele para sintetizar cortes de gastos, redução de impostos e privatizações, em tom mais ameno que a motosserra do presidente argentino Javier Milei – afirmando que o objetivo é “cortar privilégios e liberar o setor produtivo”. Em entrevistas recentes, tem defendido a necessidade de “enxugar a máquina para fazer o país voltar a investir”. O recado está dado para o mercado.

Ao mesmo tempo, Flávio busca se diferenciar do estilo mais combativo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele afirma querer “dialogar com todos os setores” e reduzir a tensão política. O movimento inclui acenos a segmentos como o eleitorado jovem, minorias e setores culturais. Trata-se de uma tentativa de reduzir a rejeição e ampliar a competitividade em relação ao eleitor de centro, estratégia apontada por analistas como essencial para a viabilidade eleitoral.

Lula, por sua vez, enquadra a eleição como uma “guerra de narrativas”, com prioridade em impedir o retorno da direita ao poder. O presidente costuma apresentar a disputa como escolha entre projetos de país com implicações sociais profundas. A retórica reforça o papel do Estado e a defesa da soberania diante do que chama de interesses do mercado financeiro e pressões externas, retomando o tom nacional-desenvolvimentista característico de seus mandatos anteriores.

Para Arthur Wittenberg, professor de Relações Institucionais do Ibmec-DF, Lula deverá complementar o discurso social com respostas mais claras sobre segurança pública e inflação percebida. Esses são temas que têm peso entre eleitores urbanos.

A disputa entre os dois candidatos será traçada em meio a um contexto político desafiador, com polarização consolidada e eleitorado sensível a sinais claros de posicionamento. O avanço do eleitorado evangélico, a percepção de custo de vida elevado e o cansaço com lideranças tradicionais influenciam o cenário.

Nesse contexto, Lula e Flávio combinam convicção ideológica com cálculo estratégico, ajustando discurso e tom conforme a reação do eleitorado, num embate que já se desenha como “plebiscito” entre modelos de país.

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