Groenlândia: A Ambição Territorial Americana e Sua História

Donald Trump, durante seu segundo mandato, agitou a política internacional ao verbalizar o desejo de anexar a Groenlândia ao território americano. O que para muitos soou como uma excentricidade, para a **Folha de Paraguaçu** revela a persistência de uma estratégia secular de expansão territorial. Essa prática moldou os Estados Unidos como potência hegemônica, com mais da metade de seu território adquirido por meio de compras ou anexações, uma mentalidade que ecoa desde o século XIX e ressurge agora com a ilha ártica, impulsionada por interesses estratégicos, geopolíticos e econômicos.

As Raízes da Expansão Territorial Americana

A história dos EUA é intrinsecamente ligada à aquisição de vastos territórios. O que começou como uma necessidade de consolidar fronteiras, evoluiu para uma busca por recursos e projeção de poder.

Louisiana: O Gênese Diplomático (1803)

O marco inicial da expansão diplomática americana foi a Compra da Louisiana. Por US$ 15 milhões, os Estados Unidos adquiriram da França napoleônica um território de 1,3 milhão de km², praticamente dobrando sua extensão. Esse negócio, altamente vantajoso, foi possível graças à situação financeira e estratégica delicada da França na época, que via a manutenção da Louisiana como um fardo.

Flórida: Pressão e Negociação (1819)

A Flórida foi incorporada por uma dinâmica diferente. Pouco povoada e mal defendida pela Espanha, a região era um foco de instabilidade. Uma invasão de Andrew Jackson em 1818 evidenciou a disposição americana de agir militarmente. Sem condições de resistência, a Espanha cedeu o território pelo Tratado de Adams-Onís, em troca de indenizações e a renúncia temporária de reivindicações sobre o Texas.

Territórios Mexicanos: Conflito e Conquista (1845-1853)

O capítulo mais conflituoso da expansão envolveu o México. A anexação do Texas em 1845 levou à Guerra Mexicano-Americana (1846-1848). Vitoriosos, os EUA, pelo Tratado de Guadalupe Hidalgo, em 1848, obtiveram 55% do território original mexicano, incluindo vastas áreas do Sudoeste. A posterior Compra Gadsden, em 1853, por US$ 10 milhões, finalizou o redesenho da fronteira sul, estratégica para rotas de transporte.

Alasca e Havaí: Consolidação e Projeção Global (1867-1893)

A compra do Alasca da Rússia, em 1867, por US$ 7,2 milhões, foi inicialmente vista com ceticismo, mas revelou-se visionária devido às suas riquezas e importância estratégica no Ártico. Pouco depois, a anexação do Havaí, após um golpe em 1893 com apoio americano, marcou a transição dos EUA para uma potência com ambições ultramarinas no Pacífico, consolidando sua presença militar e econômica na região.

Groenlândia: Um Velho Objeto de Desejo

O interesse americano pela Groenlândia não é recente. Desde o século XIX, após a aquisição do Alasca, cogitou-se a extensão da influência no Ártico. Propostas formais foram feitas, como em 1946, mas recusadas pela Dinamarca. A presença militar americana na ilha consolidou-se no pós-guerra. Nas últimas décadas, fatores como recursos naturais, rotas estratégicas e a rivalidade global reacenderam o debate, com Donald Trump trazendo a ideia de volta ao centro da política internacional.

Antigas Ambições em Novo Cenário

A persistência da ideia de “comprar” a Groenlândia reflete uma mentalidade histórica dos EUA. Contudo, o contexto atual é radicalmente diferente. No século XXI, anexações não se limitam a tratados e cheques. Elas esbarram em soberanias consolidadas, identidades locais e em uma ordem internacional que, mesmo frágil, impõe limites. A Groenlândia, assim, serve como um espelho: revela a continuidade do expansionismo americano, mas também as tensões de um mundo que não aceita mais tão facilmente as regras do século XIX.

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