Nas últimas semanas, o contraste entre a gestão do turismo ferroviário em cidades do interior paulista ficou evidente. De um lado, municípios vizinhos celebram conquistas e articulações concretas. Do outro, Paraguaçu Paulista acumula respostas evasivas, planilhas de gastos milionários em manutenção e um patrimônio histórico que continua parado.
Recentemente, noticiamos que a cidade de Garça foi beneficiada com a doação de dois veículos ferroviários desativados, além de trilhos e dormentes da CPTM, avaliados em mais de R$ 121 mil. A transferência foi oficializada após um processo administrativo eficiente, com o claro objetivo de impulsionar o turismo local. Uma articulação direta do poder público que gerou resultados reais.
Em Paraguaçu Paulista, o cenário é oposto. Após requerimento formal protocolado no Conselho Municipal de Turismo (COMTUR) pelos conselheiros representantes da iniciativa privada, Samuel Nascimento de Andrade e Dante Henrique Mantovani , a Secretaria Municipal de Turismo, comandada por Rubens Aleixo, enviou suas respostas oficiais (Ofício Nº 099-2026). O documento, no entanto, levanta mais perguntas do que respostas.
Uma “Maria Fumaça” que não foi feita para turistas?
Um dos pontos mais alarmantes da resposta oficial é a admissão técnica sobre a própria locomotiva. A Secretaria afirma que o equipamento pertencente ao Município é uma “locomotiva manobreira”, originalmente projetada apenas para operações de manobra, e não concebida especificamente para operações turísticas regulares de passageiros.
A declaração deixa uma grande interrogação no ar: se a máquina tem limitações estruturais tão óbvias e não serve para o transporte regular de turistas, por que a gestão pública chegou a prometer publicamente que ela voltaria a rodar? E mais: por que milhões de reais continuam sendo justificados em relatórios financeiros ano após ano apenas para “preservar” uma máquina que, segundo a própria secretaria, não é adequada para a função que lhe é cobrada?
Articulação por “telefone” e falta de busca por doações
Enquanto Garça buscou a CPTM, elaborou projeto, passou por trâmites jurídicos e conseguiu a doação de maquinário, Paraguaçu Paulista parece patinar na burocracia. Questionada sobre a busca de parcerias com órgãos como DNIT, IPHAN, CPTM ou RUMO para doação de locomotivas (como a que ocorreu em Garça), a Secretaria afirmou que “até o presente momento não foram formalizadas tratativas específicas visando obtenção de recursos financeiros diretos” junto à concessionária.
A pasta argumentou que empresas de grande porte não fazem “repasses financeiros diretos” , ignorando o fato de que a cobrança do COMTUR mencionava expressamente doações de equipamentos e patrocínios, e não apenas dinheiro em conta.
Sobre a parceria com a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), a resposta oficial cita que as orientações técnicas foram obtidas “por meio de contato telefônico mantido com o representante da entidade, Sr. Fábio (‘Fumaça’)”. Apenas em fevereiro de 2026 a prefeitura enviou um ofício (Nº 027-2026) manifestando interesse formal em uma Parceria Público-Privada (PPP).
A conta para o COMTUR e a culpa nas Agências
Sem apresentar um Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica (EVTE) pronto — classificado como etapa indispensável para qualquer decisão —, a Secretaria sugeriu que o próprio COMTUR discuta a utilização de recursos do Fundo Municipal de Turismo para contratar esses estudos. Ou seja, o poder público transfere para o conselho a responsabilidade de financiar o planejamento que a própria prefeitura deveria ter feito antes de gerar expectativas.
Outro ponto que chama atenção é a situação do Memorial das Irmãs Galvão, em Sapezal. Questionada sobre a falta de visitação devido à inoperância do trem , a Secretaria respondeu que o memorial é um atrativo “independente” e que seu sucesso no mercado depende “da atuação das agências receptivas, operadores turísticos e demais agentes do setor”. Fica o questionamento: como as agências privadas venderão pacotes turísticos para um local que perdeu seu principal atrativo de acesso (o trem) e que ainda aguarda orçamento da Secretaria de Cultura para a conclusão de elementos expositivos?
O que fica para Paraguaçu?
O Ofício da Secretaria de Turismo vem acompanhado de mais de 20 páginas de planilhas financeiras, listando empenhos anuais vultosos (como R$ 429 mil em 2022 e R$ 466 mil em 2023) sob a rubrica de “Manutenção e Operação do Trem Turístico” — cobrindo contratos de energia, água, vigilância e obrigações com a Rumo.
No fim das contas, a população e o trade turístico continuam pagando a conta da manutenção, mas as perguntas essenciais continuam sem respostas definitivas:
- Se Garça consegue viabilizar a doação de equipamentos ferroviários com planejamento, por que Paraguaçu não explora o mesmo caminho de forma oficial e agressiva em vez de focar apenas no discurso da dificuldade?
- O município continuará investindo em uma locomotiva “manobreira” que a própria gestão atesta não ser ideal para passageiros?
- Haverá a contratação do Estudo de Viabilidade Econômica por parte da Prefeitura, ou o projeto do Trem Turístico foi silenciosamente engavetado enquanto se sugere que o Fundo do COMTUR pague a conta dos projetos?
O COMTUR fez o seu papel de questionar e exigir transparência. Agora, cabe à sociedade civil e à iniciativa privada avaliarem se as respostas recebidas estão à altura do potencial turístico — e do orçamento histórico — de Paraguaçu Paulista.
