Peixoto Gomide: de Assassino a Homenageado.

por Sandra Campos

O Brasil precisa mudar. E essa mudança deve começar pela proibição de homenagens públicas a pessoas que cometeram crimes como homicídio e feminicídio. Uma das ruas mais conhecidas e valorizadas da cidade de São Paulo é a Rua Peixoto Gomide, localizada, inclusive, como travessa da Avenida Paulista, um dos maiores cartões-postais do país. O que muitos desconhecem é a história por trás desse nome.

Francisco de Assis Peixoto Gomide foi um homem extremamente influente em sua época. Jurista, jornalista, procurador de Justiça, professor de Direito, ocupou altos cargos políticos, chegando à função de Senador Estadual — equivalente, à época, ao cargo de Governador de São Paulo. Casado, pai de quatro filhos, era uma figura de grande prestígio social, respeitada pelas elites políticas e econômicas do Estado.

Sua trajetória, porém, foi marcada por um episódio trágico e brutal. No ano de 1906, Peixoto Gomide assassinou sua própria filha, Sofia, de apenas 22 anos, uma semana antes de seu casamento. Ele disparou um tiro na testa da jovem dentro da residência da família e, em ato contínuo, tirou a própria vida.

Ainda assim, Peixoto Gomide recebeu um enterro com honras de chefe de Estado. Seu funeral contou com pompas oficiais, presença de autoridades e ampla cobertura da imprensa, reflexo do poder e da influência de sua família, uma das mais tradicionais e ricas de São Paulo. Sofia, a vítima, jamais recebeu qualquer honra oficial. Foi enterrada usando seu vestido de noiva, no mesmo túmulo que seu pai, e sua história foi silenciada. Esquecida.

Mesmo diante desse crime, o nome de Peixoto Gomide foi eternizado em uma das ruas mais importantes da capital paulista. Hoje, conhecer essa história torna essa homenagem uma afronta não apenas às mulheres, mas a toda a sociedade. Um criminoso não pode ser homenageado com nomes de avenidas, ruas, pontes, praças, túneis, monumentos ou qualquer equipamento público. Isso é inadmissível, bizarro e incompatível com os valores de uma sociedade que se diz justa.

Diante disso, encaminhei um ofício à Deputada Estadual Márcia Lia, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, solicitando a mudança do nome da Rua Peixoto Gomide. Minha sugestão é que a via seja rebatizada com o nome de Tainá Souza dos Santos, que faleceu na véspera do Natal de 2025, vítima de um feminicídio brutal. Tainá foi arrastada por aproximadamente um quilômetro por seu agressor. Antes de morrer, teve as duas pernas amputadas e sofreu intensamente. Deixou dois filhos pequenos, hoje órfãos.

Essa é uma mulher que merece ser lembrada. Não por poder ou prestígio, mas por sua dor, por sua história e pela injustiça que sofreu. No próximo dia 24 de janeiro, acontecerá na cidade de Jandira (SP) uma Caminhada pela Paz, chamando a atenção para a prevenção da violência doméstica. A iniciativa é do Vereador Gilson de Souza, em homenagem a Tainá. Como ele mesmo afirmou:

“É tempo de unir vozes, fortalecer a consciência e caminhar em defesa da vida das mulheres.” Ele está certo. Precisamos nos unir e conscientizar os homens de que quem ama não mata. Amar é permitir que o outro seja livre, siga seu caminho e seja feliz — mesmo que não seja ao nosso lado. Essa iniciativa precisa ser replicada em todas as cidades do Brasil.

 

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