Ruínas do Hotel São Paulo: A Memória de Paraguaçu Paulista foi jogada pelo ralo

A memória apagada de Paraguaçu Paulista: o descaso com o patrimônio histórico e a trajetória marcante de Dervil Mantovani.

Ruínas do Hotel São Paulo: A Memória de Paraguaçu Paulista foi jogada pelo ralo

Por Dante Mantovani
Fundador do Jornal Folha de Paraguaçu

A demolição de um patrimônio arquitetônico transcende a mera desintegração de alvenaria e vigas; trata-se da supressão física de um palco onde a memória coletiva de uma comunidade inteira foi forjada. Ao ver as retroescavadeiras derrubando as paredes do Hotel São Paulo, sinto um profundo luto cultural. Nas redes sociais, o sentimento popular capturou perfeitamente a nossa perplexidade diante desse apagamento urbano: “Um dos hotéis mais antigos da Cidade vai para o Chão (…) sem dó e sem Piedade”.

Eu praticamente nasci dentro do Hotel São Paulo e vivi ali até os meus 16 anos. Minha infância foi passada correndo pelas imediações da Praça da Fonte Luminosa, andando de bicicleta e tocando violão. Para mim, aquele prédio não era apenas um negócio, mas o berço da minha própria formação e o coração de Paraguaçu Paulista.

A Gênese e a Era de Ouro da Hospitalidade

A história do estabelecimento antecede a própria chegada da nossa família. Até 1938, o local pertencia ao Sr. Paulo Cei, que estabeleceu ali o pioneiro e primeiro grande hotel da cidade durante a expansão da Estrada de Ferro Sorocabana. Contudo, a verdadeira alma do edifício nasceu na década seguinte.

Em 1943, meu pai, Dervil Mantovani, adquiriu a hospedaria, fixando residência definitiva lá em 1946. Ele assumiu a linha de frente da gestão e da hospedaria, consolidando o hotel como referência na região. O hotel ficava em um ponto nevrálgico: no cruzamento da Avenida Paraguaçu com a Avenida Brasil, ladeado pelo antigo armazém de Antonio Vicente dos Reis e a poucos passos do pátio da estação. Isso o transformava em um ponto de desembarque constante e uma verdadeira casa de trânsito.

Foi meu pai quem modernizou a estrutura, instituindo o restaurante e o serviço de café da manhã, comodidades até então inéditas na rede hoteleira da região. As décadas de 1940 a 1960 foram consideradas a “Era de Ouro” do hotel:

Expansão e a Presença de Elza Vasconcellos

Um capítulo fundamental dessa trajetória começou em 1975, com a chegada da minha mãe, Elza Vasconcellos. Ao lado do meu pai, ela passou a residir e atuar no Hotel São Paulo, sempre encantando os hóspedes com seus dotes culinários excepcionais.

Foi a partir dessa união e do trabalho realizado ali que eles expandiram os negócios da família, construindo juntos o Palace Hotel, o Esplanada Hotel e a Churrascaria Esplanada — empreendimentos que consolidaram a infraestrutura de acolhimento e gastronomia na cidade.

Um Alicerce de Humanidade e Cidadania

A longevidade do Hotel São Paulo não se explica apenas pelos tijolos, mas pela envergadura moral do Sr. Dervil Mantovani, que administrou o espaço por quase 70 anos. Ele não era apenas um empresário, mas um pilar cívico:

A essência daquele hotel é bem ilustrada por um episódio do final dos anos 1960. Ao presenciar um grave atropelamento na Avenida Paraguaçu, meu pai resgatou a vítima ensanguentada com as próprias mãos. Descobrindo ser um trabalhador rural sem qualquer rede de apoio, ele o abrigou no Hotel São Paulo, adaptando um quarto com cama hospitalar e custeando todos os seus medicamentos durante 60 dias de recuperação, sem cobrar um único centavo. O hotel era, acima de tudo, um santuário de solidariedade.

O Descaso Público e o Luto Arquitetônico

O vigor do meu pai impulsionou os negócios, levando-o a administrar o Municipal Palace Hotel nos anos 1980 e a inaugurar o suntuoso Hotel Esplanada em 1990. No ano 2000, ele repassou a operação do pioneiro Hotel São Paulo em vida para o meu irmão, Demóstenes.

Demóstenes herdou a dura missão de manter vivo o patrimônio histórico em um mercado em transformação, operando o local com dedicação até 2016, ano em que sua saúde infelizmente entrou em declínio, levando ao encerramento das atividades e ao seu posterior falecimento. O nosso pai já havia nos deixado pacificamente aos 87 anos, em 6 de maio de 2008, na cidade de Assis.

Com a ausência dos seus principais gestores, o prédio passou para os filhos de Demóstenes, que não moram em Paraguaçu. Diante da pesada inviabilidade econômica de manter ou modernizar a estrutura secular, eles optaram por vendê-lo. A transação imobiliária selou o destino trágico da propriedade.

O que mais frustra é perceber que a atual demolição reflete a ausência sistêmica de visão dos nossos governantes. Não existem mecanismos de “retrofit” na nossa cidade para readaptar prédios antigos. A prefeitura poderia ter comprado e desapropriado o prédio para transformá-lo em um museu — algo fundamental em cidades como Olinda ou São Luís do Maranhão, que compreendem o valor do patrimônio histórico. No interior, a especulação imobiliária sempre sobrepuja a memória cultural.

Meus estudos musicais começaram exatamente ali, e foi com a base construída naquelas paredes que cheguei a presidir a Fundação Nacional de Artes (Funarte) e a me tornar Comendador e Imortal da Música Erudita Brasileira.

Hoje, as retroescavadeiras podem estar levando o concreto, mas o documentário que estrutura as fotografias e vídeos de época provará que a nossa trajetória recusa-se a virar poeira.

Hoje, as retroescavadeiras podem estar levando o concreto, mas o registro histórico provará que a nossa trajetória recusa-se a virar poeira. Enquanto a cidade se lembrar da presença acolhedora da minha mãe, do pioneirismo do meu pai e do trabalho do meu irmão, o Hotel São Paulo jamais será verdadeiramente demolido. A vida, apesar do luto, exige que sigamos em frente.

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