Memória seletiva: quando o assunto é dinheiro público, o mínimo que se espera é transparência. Mas, em Paraguaçu Paulista, a memória institucional parece funcionar de maneira bastante… seletiva.
Relembrando o caso
Há quase dois anos, foi publicado um vídeo agradecendo nominalmente o deputado federal Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PL-SP) pelo envio de emenda parlamentar destinada à reforma do Teatro Municipal Lucila Nascimento. O pedido teria sido articulado por Dante Mantovani, empresário local, numa dobradinha política que, à época, foi celebrada como um marco: pela primeira vez na história do município, um recurso federal chegava diretamente para a Cultura.
O registro está lá. Datado. Documentado. Com números, com imagens, com assinatura política clara. Não se trata de boato de bastidor — é fato público.
Clique aqui para assistir ao vídeo.
Memória seletiva
Ainda assim, na semana passada, a Assessoria de Imprensa da Prefeitura publicou nota oficial informando que o prefeito teria ido a São Paulo “assinar convênio” para viabilizar a reforma do teatro. Até aí, nada de extraordinário. O problema começa quando o texto omite justamente quem enviou a emenda parlamentar que originou o recurso.
Nenhuma menção a Luiz Philippe. Nenhuma linha sobre a articulação que viabilizou a verba. Nenhum reconhecimento formal ao autor da emenda.
Em compensação, o discurso institucional tratou de enaltecer Gilberto Kassab, que assinou a liberação do recurso. Kassab, de fato, pode ter cumprido seu papel administrativo na tramitação. Mas desde quando assinatura burocrática substitui autoria orçamentária? Desde quando o executor de um procedimento passa a ser o pai da criança?
Acesse o ofício e os anexos abaixo para conferir a documentação enviada na época:
O que se observa é uma tentativa bastante transparente de reconfigurar os créditos políticos. A narrativa oficial parece empenhada em deslocar o foco da origem da verba — a emenda parlamentar federal — para um ato administrativo estadual, convenientemente mais alinhado a determinados interesses locais.
Em outras palavras: troca-se o autor da verba pelo signatário do papel.
E aqui não se trata de simpatia ou antipatia partidária. Trata-se de responsabilidade institucional. Quando a assessoria de imprensa de uma estância turística opta por omitir deliberadamente a origem de um recurso público, não está apenas fazendo política — está distorcendo informação oficial.
Dinheiro público não é peça de marketing. Não é ferramenta de conveniência narrativa. E muito menos patrimônio simbólico a ser redistribuído conforme alianças momentâneas.
Se a verba veio de emenda parlamentar do deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança, articulada por Dante Mantovani, isso é um dado objetivo. Não citar o autor após alerta formal sobre a omissão não parece descuido. Parece escolha.
E escolhas têm significado.
Conclusão: memória seletiva e narrativa construída
O vídeo antigo continua existindo. Os documentos seguem registrados. A internet, ao contrário de certas versões oficiais, não sofre de lapsos de memória convenientes.
No fim das contas, a reforma do Teatro Municipal é uma boa notícia para a cidade. O problema não está no recurso — está na narrativa construída sobre ele, ou seja, na memória seletiva da prefeitura municipal.
Porque quando a verdade precisa ser editada para caber na conveniência política do momento, o que está em jogo não é apenas a autoria de uma emenda. É a credibilidade institucional.
E essa, uma vez corroída, não se reforma com convênio algum.
