Último debate do 2º turno: Lula e Flávio trocam acusações
Confronto decisivo antes da votação de domingo (25) teve embates acalorados sobre inflação, avanço de facções no Nordeste, SUS, caso Richarlison e direito de resposta no encerramento.

Último debate presidencial do 2º turno é marcado por fortes acusações entre Lula e Flávio Bolsonaro
O último debate presidencial antes da votação decisiva do 2º turno, que acontece neste domingo (25), foi dominado por uma intensa troca de acusações diretas entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Durante duas horas de confronto, os candidatos discutiram temas centrais para o país, incluindo economia, endividamento das famílias, infraestrutura, saúde, programas sociais e segurança pública.
A estratégia de Lula concentrou-se em desqualificar o adversário, afirmando que Flávio é jovem, desconhece a realidade do Brasil, não sabe o que é trabalhar e “só sabe mentir”. O petista utilizou episódios da gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para atacar uma eventual administração do senador, preferindo destacar o desempenho de seus programas atuais e feitos de mandatos anteriores em vez de focar em novas propostas.
Por outro lado, Flávio Bolsonaro estruturou seus ataques em três pilares: a crise econômica refletida na perda do poder de compra e no endividamento familiar, o avanço da criminalidade e a má gestão federal, criticando a alta carga tributária frente ao baixo retorno em serviços para a população.
Economia, infraestrutura e agronegócio abrem o confronto
Logo no primeiro bloco, Flávio questionou a capacidade de execução do governo federal, citando levantamentos sobre obras paralisadas e cobrando explicações sobre como Lula entregaria projetos que não concluiu em quatro anos. O presidente rebateu mencionando os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e comparou o senador a estudantes que apenas decoram conteúdos para provas sem compreender o assunto de fato.
Ao abordar o custo de vida, o candidato do PL criticou a inflação dos alimentos, os impostos e os gastos públicos. “Hoje é dia 23 de outubro, o mês ainda não acabou. O seu salário já acabou?”, indagou Flávio. Em resposta, Lula defendeu sua política de valorização do salário mínimo, questionou se o oponente garantiria reajustes acima da inflação e associou as ideias econômicas de Flávio às medidas implementadas por Javier Milei na Argentina. O senador garantiu que manterá ganhos reais para salários e aposentadorias, acusando o PT de descontrole fiscal.
No setor do agronegócio, Flávio criticou as condições de financiamento rural e a condução do Plano Safra. Lula defendeu os recursos liberados para o campo, ressaltou a abertura de mercados internacionais e ironizou a relação do adversário com o presidente norte-americano Donald Trump. “Quando meu adversário ficou lambendo as botas do Trump para taxar o Brasil, não fiquei preocupado”, disparou o petista.
Saneamento básico e o avanço do crime organizado no Nordeste
Ainda na etapa inicial, Flávio acusou o PT de ter votado contra o marco legal do saneamento básico no Congresso Nacional. Ele destacou o déficit de água tratada e coleta de esgoto no país, prometendo retomar a meta de universalização dos serviços até 2033. Lula contra-atacou listando aportes em estradas, portos, aeroportos e saúde, além de criticar a gestão ambiental do governo Jair Bolsonaro.
Quando questionado sobre seus planos para o Nordeste, Flávio afirmou que governará em parceria com todos os chefes de Executivo estaduais, mesmo os de oposição, mas colocou o combate às facções como prioridade máxima na região.
“Eu vou governar para o Nordeste, vou governar inclusive em parceria com os governadores que não são aliados meus políticos. Lula, os estados do Nordeste são administrados pelo PT e pelos seus parceiros. São os mais violentos do Brasil. Você deixou o Comando Vermelho se proliferar pelo Nordeste junto com os governadores que são seus apoiadores”, declarou o senador, que também mencionou investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente, e sua relação com a lobista Roberta Luchsinger.
Políticas sociais, revisão de votos e o embate sobre o SUS
O segundo bloco migrou para a pauta social, abordando o Bolsa Família, a população em situação de rua e a violência contra a mulher. O momento de maior tensão ocorreu quando Flávio utilizou a expressão “nove dedos” para se referir a Lula. O presidente exigiu retratação imediata, argumentando que a fala ofendia todos os trabalhadores vítimas de acidentes laborais.
Flávio pediu desculpas e admitiu o erro na expressão, mas emendou uma cobrança direta ao adversário, questionando se Lula pediria desculpas pelo número de moradores de rua ter dobrado em sua gestão, além de citar as mulheres vítimas de violência e os cidadãos endividados. Segundo o senador, o sentimento captado em suas viagens pelo Nordeste resume-se à palavra “decepção”. “Porque a esperança virou decepção, a esperança virou medo”, completou.
Ainda neste bloco, Lula cobrou o adversário por ter votado contra a ampliação da licença-maternidade quando atuava como deputado estadual no Rio de Janeiro. Flávio reconheceu a mudança de postura: “Eu estava errado. Hoje, depois que eu casei, depois que eu tenho duas filhas, mais do que nunca eu sei da importância da mãe estar perto do filho por até mais de 180 dias, se possível”.
Na área da saúde, o Sistema Único de Saúde (SUS) e a pandemia de Covid-19 protagonizaram as discussões. Flávio propôs um “tesouraço” contra a corrupção, a burocracia e os impostos para melhorar a aplicação de recursos, denunciando a falta de remédios e a demora no atendimento de crianças com deficiência. “Você chega num hospital e é fila pra tudo”, criticou. Lula defendeu o SUS e responsabilizou a gestão de Jair Bolsonaro pelas mortes na crise sanitária, afirmando que o ex-presidente deveria ter criado um gabinete de crise com especialistas. “O SUS é o responsável por evitar que morresse mais gente da Covid depois da responsabilidade do governo do pai dele”, rebateu o petista.
Endividamento, “saidinhas” de presos e o caso Ana Clara
A perda do poder de compra abriu o terceiro bloco. Flávio afirmou que a alta de juros e os gastos governamentais forçaram a população a se endividar para comprar itens básicos. “O brasileiro antes parcelava um fogão, parcelava um micro-ondas, parcelava a geladeira, agora parcela o que tem dentro da geladeira”, afirmou, acusando Lula de gastar mais de R$ 405 bilhões visando a reeleição. “Você prometeu picanha e não entregou a picanha. Você prometeu devolver o poder de compra para o brasileiro e não entregou, está entregando dívida”, acrescentou.
Lula defendeu as duas edições do programa Desenrola, que atenderam cerca de 15 milhões e 16 milhões de pessoas, respectivamente, e atribuiu parte do endividamento familiar às apostas on-line. “Nós acabamos com as bets porque elas estão virando um inferno na vida das pessoas”, justificou o presidente.
De volta ao tema da segurança pública e retomada de territórios, Flávio criticou as saídas temporárias de presos (as “saidinhas”) e defendeu classificar facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas. “Por que você coloca o interesse das vítimas na frente dos bandidos?”, questionou o senador, invertendo os termos ao cobrar o presidente sobre o benefício penal.
Lula respondeu trazendo à tona a morte da menina Ana Clara, de 5 anos, cuja mãe estava presente na plateia, e cobrou o senador por ter defendido o policial acusado do disparo. “Ela, eu e o Brasil inteiro gostaríamos de saber: o que leva um senador da República a defender um policial assassino que deu tiro em uma criança de 5 anos?”, indagou o petista. Flávio prestou solidariedade à mãe da vítima, mas sustentou a defesa do agente público, afirmando confiar que o disparo não partiu da arma do policial em questão.
Acusações sobre ilha em Angra, Banco Master e direito de resposta no encerramento
O quarto bloco, de tema livre, elevou o nível das acusações pessoais. Lula questionou Flávio sobre uma disputa judicial pela posse de uma propriedade na Ilha Comprida, em Angra dos Reis (RJ), envolvendo o jogador de futebol Richarlison — que alega ter investido R$ 10 milhões no local — e o advogado Willer Tomaz, apontado pelo petista como sócio do senador. “Como vocês tomaram a ilha do Richarlison?”, perguntou Lula. Flávio negou qualquer sociedade com Tomaz, declarando serem apenas amigos, e afirmou que a questão já foi julgada pela Justiça: “A ilha nunca foi do Richarlison”.
Em seguida, o candidato do PL cobrou explicações sobre um uísque avaliado em R$ 500 mil que Lula teria recebido e mencionou que um relatório da Polícia Federal atestou a ausência de dinheiro público ou contrapartidas no patrocínio do filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro. Lula, por sua vez, vinculou o adversário ao banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no caso Banco Master: “O que você não se conforma é que você criou um banqueiro e eu fiz dele prisioneiro. Você e Vorcaro parecem uma coisa só”.
Nas considerações finais, Lula pediu desculpas pelo tom elevado do debate, exaltou sua biografia e afirmou que o pleito de domingo definirá o rumo democrático do país. “Ou a gente mantém a democracia funcionando ou a gente vai ter um miliciano governando este país”, declarou.
A fala gerou direito de resposta imediato a Flávio Bolsonaro, que garantiu jamais ter sido investigado por vínculo com milícias e prometeu enquadrá-las como organizações narcoterroristas, além de devolver a tranquilidade para o cidadão andar com o celular na rua sem medo de assaltos. “Eu nunca fui investigado por relação com milícia. […] Eu vou combater as milícias, vou classificá-las como organizações narcoterroristas e vou recuperar os territórios dominados por criminosos”, rebateu. No encerramento, o senador reafirmou o compromisso com a liberdade, a segurança e a recuperação do poder de compra.
Quem acompanhou os candidatos nos bastidores e na plateia
A presença de aliados de peso marcou os bastidores do encontro decisivo. Confira a lista de apoiadores que acompanharam os presidenciáveis:
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No estúdio com Lula (PT): a primeira-dama Janja Lula da Silva; o senador Camilo Santana (PT-CE); e o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira.
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No estúdio com Flávio Bolsonaro (PL): a esposa do candidato, Fernanda Bolsonaro; a assessora econômica da campanha, Daniella Marques; e seu irmão Carlos Bolsonaro (PL-SC), senador eleito por Santa Catarina.
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Na plateia por Lula: Geraldo Alckmin (PSB), vice-presidente e candidato a vice na chapa; Edinho Silva, presidente nacional do PT; Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência; Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil e senador eleito; e Anielle Franco, ex-ministra da Igualdade Racial e deputada federal eleita.
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Na plateia por Flávio: Alfredo Gaspar, candidato a vice-presidente na chapa; Rogério Marinho (PL), coordenador da campanha; Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo; Jorginho Mello (PL), governador de Santa Catarina; Sérgio Moro (PL-PR), senador e governador eleito; Douglas Ruas (PL), governador eleito do Rio de Janeiro; e Luciano Zucco (PL), governador eleito do Rio Grande do Sul.



