
Vejo com crescente preocupação a reapresentação de São Paulo no cenário político nacional. Marina Silva e Simone Tebet, que lideram disputas eleitorais para o Senado, revelam uma desconexão evidente entre suas trajetórias e as demandas concretas do estado. Falta compromisso genuíno com a realidade paulista, vivida por quem produz, trabalha e sustenta boa parte da economia do país.
A realidade é que muitos dos projetos políticos gravitam em torno de Brasília, em um modelo centralizador que, há décadas, concentra poder e recursos. Uma engrenagem pesada, marcada por burocracia excessiva e por práticas pouco transparentes, que acabam por distorcer a distribuição do que é arrecadado. Nesse arranjo espúrio, São Paulo contribui de forma desproporcional, sem receber quase nada.
Ocorre que sendo o estado mais rico do Brasil, São Paulo ainda enfrenta deficiências em áreas essenciais. Ao mesmo tempo, os recursos redistribuídos para os estados mais pobres não resolvem, de forma eficaz, os problemas locais. Não é apenas ineficiência, mas um sistema que precisa de revisão profunda.
Reconheço que o espírito acolhedor do paulista é uma virtude histórica. Sempre fomos abertos ao novo, ao diverso, ao que vem de fora. No entanto, quando essa abertura se traduz em escolhas políticas pouco criteriosas, ela pode se tornar um ponto de fragilidade. Representatividade exige vínculo e compromisso com a realidade de quem você representa!
Não defendo isolamento, mas equilíbrio. É preciso valorizar lideranças que compreendam São Paulo por dentro e que estejam dispostas a defender seus interesses com clareza. Nossa história mostra que isso é possível. Em momentos decisivos, o estado já exerceu protagonismo e ajudou a moldar os rumos do país.
Hoje, porém, noto uma tendência preocupante: a aceitação passiva de decisões centralizadas e distantes dos Estados e municípios, alimentando um ciclo de dependência e frustração. Reclama-se muito, mas muda-se pouco na prática — especialmente nas urnas.
A responsabilidade, portanto, recai sobre o eleitor. O voto é a ferramenta mais concreta de transformação. Se continuarmos repetindo escolhas que não nos representam, estaremos legitimando o mesmo modelo que criticamos.
Ainda assim, acredito na capacidade de mudança. Se São Paulo resgatar a consciência de sua força e de seu papel, poderá não apenas redefinir seu próprio caminho, mas também influenciar positivamente o restante do país. No fim, a força de Brasília depende, em grande parte, do silêncio de São Paulo — e talvez esteja na hora de romper com ele.



