IA: Brasil na Encruzilhada da Regulamentação Global e Seus Impactos
Em um cenário global cada vez mais dominado pela tecnologia, a disputa sobre quem ditará as regras para a Inteligência Artificial (IA) alcançou um novo patamar, com o governo dos Estados Unidos definindo um marco regulatório de profundo impacto para o ecossistema tecnológico mundial. Essa movimentação estratégica, que visa assegurar a dominância americana em IA, coloca o Brasil e suas empresas em uma encruzilhada, exigindo adaptação e um olhar atento ao futuro do desenvolvimento digital.
A Estratégia Americana: Inovação Acima de Tudo
A administração americana partiu da premissa de evitar cinquenta leis estaduais divergentes, buscando um padrão nacional minimamente oneroso para privilegiar a inovação e a competitividade. A visão é clara: estados como obstáculos regulatórios, e o governo federal como guardião contra normas excessivas. O pano de fundo é geopolítico e econômico, com o objetivo expresso de assegurar a dominância global dos EUA em IA.
Para isso, foram determinadas medidas como a criação de uma força-tarefa no Departamento de Justiça para contestar judicialmente leis estaduais de IA conflitantes, a vinculação de acesso a fundos federais à não adoção de normas consideradas onerosas, e a orientação para que a Federal Trade Commission (FTC) atue na preempção de leis estaduais. Essa abordagem consolida um framework nacional pró-inovação e pró-mercado, mesmo sem uma lei federal abrangente aprovada pelo Congresso.
Choque de Modelos: EUA vs. Europa
Este movimento contrasta diretamente com a abordagem europeia. Enquanto o AI Act da União Europeia consolida um modelo baseado em risco, com categorias de sistemas e um robusto catálogo de obrigações de transparência e supervisão humana, a estratégia americana aposta em diretrizes mais abertas e na preempção de iniciativas estaduais mais rigorosas. A Europa foca na precaução regulatória, enquanto os EUA priorizam a aceleração da inovação.
O Caminho do Brasil: Equilíbrio e Proteção
Em solo nacional, a Folha de Paraguaçu tem acompanhado o debate em torno do PL 2.338/2023, o futuro Marco Legal da Inteligência Artificial. Nosso país caminha para uma estrutura fortemente inspirada no modelo de risco europeu, adotando princípios como transparência, responsabilidade, segurança e não discriminação. O texto prevê a proibição de usos de “risco excessivo” e um regime reforçado para sistemas de alto risco, além da criação de uma autoridade nacional para coordenar a governança e regulação da IA.
Nesse cenário, observamos uma triangulação regulatória global: os EUA com uma abordagem federal pró-inovação e contra a fragmentação; a UE com um modelo prescritivo e centrado em direitos; e o Brasil buscando um equilíbrio, mas claramente mais alinhado à gramática europeia de risco e governança.
Desafios e Oportunidades para Empresas Brasileiras
Para as empresas brasileiras de tecnologia, especialmente aquelas com produtos de IA que visam o mercado norte-americano, a estratégia dos EUA gera tanto oportunidades quanto incertezas. Um padrão federal mínimo e menos fragmentado pode simplificar o compliance. Contudo, a criação de uma força-tarefa de litígios e a ameaça de corte de recursos para estados divergentes prenunciam um contencioso interno intenso, tornando o ambiente jurídico volátil no curto e médio prazo.
Navegando na Complexidade: O Que as Empresas Precisam Fazer
Diante deste mosaico regulatório em mutação, grupos brasileiros com operações ou parceiros de negócios nos EUA precisam agir. É fundamental mapear o portfólio de IA por jurisdição, classificando sistemas por risco, e reestruturar contratos para prever a mutação regulatória. A implementação de programas de governança de IA que tomem o padrão “UE + Brasil” como boas práticas é crucial, integrando-o à governança de proteção de dados (LGPD) e segurança da informação. O monitoramento contínuo da evolução legislativa e judicial é indispensável.
A ordem executiva americana é mais do que um ato administrativo estrangeiro; é um marco na disputa global por quem ditará o ritmo da regulação da IA. Empresas brasileiras, com seu ecossistema de startups e seu próximo marco legal, devem construir uma governança de IA capaz de dialogar com os cenários globais, para não se tornarem meros objetos no jogo de poder regulatório.



