Operação dos EUA que capturou Maduro
A operação militar dos Estados Unidos que levou à captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro marcou um ponto de inflexão na política de segurança americana para a América Latina. A medida, anunciada na madrugada do sábado (3), enviou um sinal claro ao Brasil sobre um novo cenário na região.
A captura de Maduro indica uma disposição inédita de Washington para empregar força direta na América Latina, uma estratégia prevista na nova Estratégia Nacional de Segurança, lançada no fim do ano passado. O documento é uma reinvenção da Doutrina Monroe, princípio do século 19 que afirma a primazia dos Estados Unidos sobre o hemisfério ocidental.
Maduro foi detido em território venezuelano e levado aos Estados Unidos para responder a acusações de narcoterrorismo. A ação ocorreu após semanas de escalada retórica, sanções e movimentações militares na região do Caribe. Em pronunciamento, Donald Trump disse que a operação abre uma nova fase na relação dos EUA com regimes considerados hostis no continente.
Para o Brasil, o impacto imediato pode se concentrar na fronteira norte. Autoridades venezuelanas chegaram a anunciar o fechamento da passagem terrestre com Roraima, no sábado. No entanto, o bloqueio foi temporário, e a fronteira foi reaberta horas depois, segundo relatos de agências.
Apesar do clima de incerteza, o Itamaraty garante que a situação está tranquila e que não há registro de fluxo migratório atípico para o lado brasileiro. Ainda assim, autoridades federais e estaduais passaram a monitorar com mais atenção a movimentação na região. Roraima é o principal ponto de entrada de venezuelanos no Brasil desde o início da crise no país vizinho.
A captura de Maduro também obriga o governo brasileiro a lidar com um equilíbrio delicado. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já condenou publicamente a ação americana, classificando-a como violação da soberania venezuelana. Nos últimos meses, Lula vinha tentando melhorar o contato com Washington em uma série de conversas diretas com Trump.
A operação recoloca a América Latina no centro das prioridades de segurança dos Estados Unidos. A nova Estratégia Nacional de Segurança tem foco explícito em crime organizado transnacional, narcotráfico, imigração ilegal e contenção da influência de potências como Rússia e China. Nesse contexto, Trump tinha começado a tratar a Venezuela oficialmente como um problema de segurança para os EUA, e não só diplomático.
Luiz Augusto Módolo, doutor em Direito Internacional pela USP, afirma que essa lógica pode alcançar outros países da região, mesmo sem o uso direto de força militar. O ataque à Venezuela é, com isso, um alerta potencial para o governo brasileiro, mesmo que não imediato.
“O Lula, se realmente não fizer concessão aos Estados Unidos de mostrar que está combatendo o narcotráfico, que está preocupado com a situação do continente – se deixar o Brasil também ser instrumentalizado pelos narcoterroristas –, pode ter problemas adiante”, afirma Módolo.
O Brasil tem resistido a designar grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, diferente de países vizinhos como Argentina e Paraguai. Além disso, os governos petistas têm histórico de pouca ênfase no combate direto às grandes facções.
Mesmo assim, segundo Módolo, o próximo alvo potencial da estratégia de Donald Trump dificilmente seria o Brasil. O governo colombiano de Gustavo Petro tem chance maior, embora essa hipótese também não deva se materializar imediatamente. Diferentemente da Venezuela, a Colômbia oferece a possibilidade de uma transição pela via eleitoral, o que permitiria a Washington esperar para ver.
“Ele pode aguardar o Petro sair pela via eleitoral sem ter que comprometer recursos ou soldados americanos numa aventura um pouco incerta na Colômbia. Eu acho que o que aconteceu com o Maduro é que ele realmente esgotou as negociações que foram feitas na diplomacia de back channel. O Maduro ignorou todos os sinais que estavam sendo dados. Pagou para ver”, afirma Módolo.



