Cultura e PessoasEditorialLocal

Guerra na Cultura: Prefeitura e Lyra em Embate Milionário

Repasses de mais de R$ 1,1 milhão à Associação, contrato vencido e denúncia de instrumentos abandonados revelam racha profundo.

Guerra na Cultura: Prefeitura e Associação Trocam Farpas em Meio a Milhões e Instrumentos Abandonados

Paraguaçu Paulista assiste a um colapso institucional sem precedentes no setor cultural. De um lado, a Secretaria Municipal de Cultura, encurralada por denúncias de má gestão na compra de equipamentos. Do outro, a Associação Cultural Maestro Cícero Siqueira (ACCS), administradora da Lyra, que adota um tom de cobrança pública mesmo após receber mais de R$ 1,1 milhão em repasses municipais nos últimos dois anos e operar com contrato vencido. O embate revela uma profunda rachadura entre as instituições, deixando a população e o dinheiro público no fogo cruzado.

O Embate Milionário: A Cobrança da Lyra

A Associação Cultural Maestro Cícero Siqueira, que gere a centenária Lyra Maestro Roque Soares de Almeida, assumiu o papel de vítima e fiscalizadora no cenário atual. No entanto, dados financeiros revelam que a ACCS não está desamparada. A entidade recebeu vultosos repasses da Prefeitura Municipal: R$ 569.920,00 em 2024 e mais R$ 569.920,00 em 2025.

Apesar do volume expressivo de recursos públicos recebidos, a Associação adota postura pública de cobrança à Secretaria Municipal de Cultura em relação à aquisição de instrumentos, mesmo sendo a principal entidade cultural beneficiada com repasses do município. O debate ganha contornos ainda mais sensíveis diante do fato de que o Termo de Colaboração da ACCS foi posteriormente aditado em 2025, sem novo processo licitatório, em um município que possui outras associações culturais aptas a disputar espaço e recursos públicos.

A situação levanta um questionamento inevitável: diante de mais de R$ 1,1 milhão destinados à Associação em dois anos para manutenção da atividade musical, até que ponto a dependência de aquisições paralelas da Prefeitura evidencia falhas da gestão pública — ou limitações da própria entidade responsável pela Lyra?

A Farra dos Instrumentos e as Contradições da Secretaria

A postura da Secretaria de Cultura, no entanto, agrava a crise e fomenta as críticas da Associação. O secretário Fernando Ferreira Krokarez de Souza é o alvo central do Requerimento nº 89/2026 da Câmara Municipal, que investiga o abandono de instrumentos musicais. O montante de R$ 81.523,08 em emendas impositivas foi destinado à Lyra, com R$ 29.779,00 já desembolsados aos fornecedores.

A realidade atesta o desperdício. Os equipamentos entregues estão lacrados em caixas e sem utilidade. Há discrepâncias graves com o Termo de Referência, e itens foram devolvidos sem rastreabilidade oficial. Ignorando as evidências físicas, o secretário afirmou oficialmente que não há irregularidades e que os instrumentos estão em uso, uma versão irreal que atenta contra a transparência.

Palanque no Dia das Mães

A ruptura institucional atingiu o ápice no último sábado (9), na Concha Acústica. O que deveria ser um concerto de Dia das Mães transformou-se em palanque político. O maestro Cícero Siqueira utilizou o microfone para atacar abertamente a Secretaria, criticando a mudança arbitrária do nome do evento — de “Lyra & Elas” para “Noite das Estrelas” — e a imposição da Prefeitura para a apresentação de um Coral Infantil que a Associação sequer possui.

Entre repasses milionários questionáveis, contratos vencidos, instrumentos abandonados e egos expostos, a crise na cultura de Paraguaçu Paulista exige intervenção imediata.

A reportagem da Folha de Paraguaçu procurou oficialmente tanto a Secretaria Municipal de Cultura quanto a Associação Cultural Maestro Cícero Siqueira (ACCS) para manifestação sobre os questionamentos envolvendo a aquisição de instrumentos musicais destinados à Lyra Maestro Roque Soares de Almeida, os repasses públicos, a relação institucional entre as partes e a situação do termo de colaboração vigente.

Os questionamentos foram encaminhados diretamente aos envolvidos, com prazo para resposta até às 18h desta data, visando garantir o contraditório e o direito de manifestação antes da publicação da matéria.

Até o fechamento desta edição, não houve resposta aos questionamentos enviados por nenhuma das partes. O espaço permanece aberto para eventual manifestação posterior, podendo esta ser incluída em atualização futura da reportagem.

Mostrar mais

Artigos relacionados

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
Botão Voltar ao topo
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x